Os Portais do Outro Mundo
Os Portais do Outro Mundo
Dizem os antigos, que o Outro Mundo não está longe, mas velado. Não se alcança com os pés, mas com o estado da alma. Os portais não são portas de pedra, mas momentos em que o véu entre os mundos se torna fino como o nevoeiro do amanhecer.
Ainda assim, para que a mente moderna compreenda sem reduzir o mistério, convém lembrar: os celtas nomearam esse além de muitas formas. Em tradições irlandesas aparece Mag Mell, descrito como um reino paradisíaco ligado ao pós vida e à glória, às vezes imaginado como ilha a oeste da Irlanda ou como domínio sob o oceano. Também surge Tír na nÓg, Terra da eterna juventude, um Mundo sem doença e sem morte, onde o tempo não envelhece — e cuja travessia, em certas narrativas, exige guia e respeito às condições do retorno.
No País de Gales, aparece Annwn, associado ao Outro Mundo em tradições medievais como as reunidas no Mabinogion, tratado como dimensão de mistério, abundância e proximidade com o mundo humano.
Onde o Véu se Torna Fino;
Há lugares onde o mundo visível se esquece de ser sólido e lembra que é sonho. Nesses lugares, o Outro Mundo toca o nosso.
Entre esses portais, os druidas reconheciam as encruzilhadas, onde destinos se cruzam e escolhas abrem caminhos, os círculos de pedra, onde o tempo parece ceder à memória da terra, as margens de lagos e rios, onde a água sustenta reflexos que não pedimos, as florestas antigas, onde cada árvore se comporta como guardiã.
Quando se fala em círculos de pedra, a Terra oferece exemplos reais que ajudam a sustentar a imagem sem empobrecê-la. Nas ilhas Orkney, no norte da Escócia, existe o Círculo de Brodgar; Ring of Brodgar, descrito como um círculo de pedras neolítico com cerca de 104 metros de diâmetro, ligado a um conjunto de sítios arqueológicos importantes na região; fontes indicam estimativas de construção entre 2500 a.C. e 2000 a.C. Tais estruturas existem — e que, ao entrar nelas, a pessoa entende por que culturas antigas escolheram a pedra para conversar com o céu.
O Fogo como Passagem;
O fogo não é apenas calor e luz; é passagem. Ele consome a forma, mas liberta a essência. Por isso, os druidas acendiam fogueiras não apenas para iluminar a noite, mas para abrir caminhos.
O fogo é limiar quando queima o que já não serve, purifica o que deve permanecer, transforma medo em coragem, converte dor em sabedoria.
Ao contemplar as chamas, o iniciado via mais do que fogo: via o reflexo do Outro Mundo dançando diante de si.
A cultura gaélica oferece uma âncora histórica que conversa com o símbolo: Beltane é descrito como um dos grandes festivais sazonais gaélicos, associado ao início do verão pastoril, com fogueiras especiais cujas chamas, fumaça e cinzas eram vistas como portadoras de proteção; fontes registram que pessoas e gado caminhavam ao redor ou entre fogueiras, e que os fogos domésticos eram apagados e reacendidos a partir do fogo de Beltane.
Os Portais do Tempo;
Nem só o espaço guarda portais; o tempo também os esconde, solstícios e equinócios; festas em que o limiar se afina. Nessas horas, diz ele, o Anam recorda de onde veio e para onde retornará.
O que muda nessas bordas não é o mundo apenas — é a forma como a consciência o toca. Há noites em que a mente quer explicações. E há noites em que a mente, cansada, aceita apenas perceber. O tempo, então, deixa de ser cronologia e volta a ser ritmo.
O Portal Interior;
Os druidas ensinavam que nenhum portal externo pode ser atravessado se o portal interno permanecer fechado.
Esse limiar íntimo se abre quando o coração se aquieta, a mente deixa de lutar contra o que é, a alma é ouvida sem medo.
O iniciado aprende a descer ao próprio silêncio, e ali encontra o Outro Mundo refletido em si mesmo. Pois o que está além também está dentro.
A Travessia Consciente;
Muitos atravessam portais sem saber: em sonhos, em visões, em momentos de grande dor ou grande beleza. Mas o caminho do druida é a travessia consciente.
A travessia consciente é entrar em estados de profunda presença, reconhecer sinais sutis, aceitar que o Outro Mundo não é fuga, mas um espelho, o viajante não volta o mesmo. Traz fragmentos de sabedoria, símbolos, intuições — sementes de Awen que germinarão no tempo certo.
O Guardião dos Portais;
Toda passagem sagrada tem um guardião. Às vezes é um animal, às vezes um ancestral, às vezes uma figura de luz ou sombra. Mas o guardião mais exigente é sempre o próprio ser. O eu de nascimento.
Pois o verdadeiro guardião pergunta: Estás pronto para ver o que és, sem máscaras? Aquele que responde com sinceridade, mesmo temendo, encontra o caminho.
Manuscrito ainda em Produção...
TEXTO COM ©DIREITOS PRESERVADOS – ORIGINAL:
CLAUDIANNE DIAZ
