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Na Eternidade - Onde me sentei e chorei



A Alma Indivisível – Onde me sentei e Chorei
[À minha mãezinha...]

 

Quando atravessei o limiar, não encontrei escuridão. Encontrei paz — e nele, todas as vozes que ignorei em vida. A morte não me levou; ela me apresentou àquilo que sempre fui despida do tempo, sem peso. Compreendi, então, que viver não é existir — é tocar e ser tocada, ainda que por um instante. O fim não fecha a porta. Apenas ensina a olhar para trás com ternura! Essas são minhas palavras...


Lá onde atravessei o portal de bronze, onde havia inúmeras serpentes escuras, até os cachos de brotos das árvores eram ninhos de seus filhotes, acreditei estar em um lugar intocável, um lugar apenas para os que não retornam. Estive ali, à beira das águas que não ousaria tocar. Mas, tive que tocar. Acompanhei alguém na caminhada mais dura e difícil da minha vida, minha mãezinha, a que jamais quis ter que voltar. Mesmo assim, aqui estou.

Na primeira camada, a morte é a lei; na camada das sombras, é a passagem, a escolha do indivíduo. Ali, já sabes para que nasceste. Compreenderás a tua finalidade e inteireza e, então, farás a dura e definitiva escolha: ficar e vagar até que cumpra o seu tempo, desistir de tua jornada ao encontro do teu herói, o teu eu espiritual, ou ir. Apenas ir.

O elo desse amor tão forte e supressor, que cria raízes e nos amarra, é ali que se revela. Essa escolha é feita naquele lugar, para sempre. Antes de deixar o último perfume, o último abraço, a última lágrima, o elo entre esses dois mundos deve ser rompido. E, como se uma lança transpassasse o peito e rasgasse a alma, a escolha precisa ser feita. Até ali, o livre‑arbítrio se mantém. A partir desse momento, ele se encerra.

Ao norte, os campos elísios permanecem verdes. A haste do tempo nos conduz ao reino do ar. O perfume é mantido no rinencéfalo, onde nossas origens nos levam quando sentimos um cheiro. Essa é a lembrança da nossa saudade inexplicável. O som e o aroma são memórias que, pouco a pouco, vão sendo deixadas.

As águas que nos separam das camadas inferiores nos conduzem à próxima etapa. Essa etapa nos desligou do sistema nervoso central e do hipotálamo, retirou o tato e deixou marcas no rinencéfalo, onde se fixam o olfato e o som, sendo a mesma via primitiva. É o universo das almas, dos imortais, daqueles que fizeram as mais duras escolhas para seguir em evolução.

Tais escolhas serão ajustadas e mantidas para a alma do herói, o eu que o aguarda para romper definitivamente os elos da carne e se unir aos iniciados. Esse caminho é árduo, e as escolhas anteriormente feitas jamais serão acessadas.


 TEXTO COM ©DIREITOS PRESERVADOS – ORIGINAL:
CLAUDIANNE DIAZ
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