Vênus - A Deusa Que Ama o Avesso
Quem volta do abismo não retorna igual; traz nos olhos o reflexo do que o abismo viu.
Atravessar
o intervalo escuro foi como ser arrancado de um sonho que não tinha começo nem
fim. Quando Apolo, Vênus e Hermes emergiram de volta ao espaço conhecido, o
universo pareceu respirar — como se tivesse sentido falta deles.
Mas
algo estava errado.
Muito
errado.
Apolo
foi o primeiro a perceber. Sua luz, que sempre fluíra com perfeição, agora
tremeluzia em ondas irregulares, como se estivesse tentando se ajustar a um
novo ritmo.
— O
tempo não está igual, murmurou ele.
Vênus
segurou o braço de Hermes, sentindo a vibração que percorria o corpo luminoso
de Apolo.
— Você
está desalinhado.
Hermes
girou o caduceu, e uma projeção surgiu diante deles — mas a imagem os deixou em
silêncio.
A
órbita da Terra estava ondulando.
Não
suficiente para destruir, mas o bastante para não ser natural .
— A
primeira fenda, disse Hermes, com a voz grave. — O intervalo escuro tocou o
tempo daqui.
Vênus
levou a mão ao peito, como se sentisse a dor do planeta azul.
— A
Terra está sofrendo.
Apolo
aproximou-se da projeção, analisando cada curva, cada variação.
— A
rotação está oscilando. Os dias estão mudando de duração. O tempo está respirando
errado.
Hermes
completou:
— E
isso é só o começo.
A
luz de Apolo se intensificou, tentando estabilizar-se, mas a oscilação
persistia.
Era
como se o intervalo escuro tivesse deixado uma marca nele — uma cicatriz
luminosa.
Vênus
tocou seu rosto, suave.
— O
que o vazio fez com você?
Apolo
fechou os olhos por um instante.
— Ele
me mostrou algo. Algo que não consigo traduzir. Não ainda...
Hermes
observou os dois com atenção.
— O
intervalo escuro não apenas dobra o tempo. Ele o absorve e o consome. Ele o
devolve distorcido.
Vênus
franziu o cenho.
— Mas
por quê?
Hermes
respondeu com a voz mais séria que já usara.
— Porque
algo passou por ele, algo que não devia existir e que deixou uma cicatriz no
tempo.
Apolo
abriu os olhos — e por um instante, Vênus viu neles um brilho que não era dele.
Um
brilho antigo, estranho e profundo.
— Eu
senti essa presença, disse ele. — Ela não era luz, nem sombra. Não era vida e
nem morte.
Vênus
apertou seu braço.
— Então
o que era?
Apolo
demorou para responder.
Quando
falou, sua voz parecia vir de muito longe.
— Era
origem.
Hermes
respirou fundo.
— Então
não é um fenômeno, é um agente.
Vênus
sentiu um arrepio percorrer sua alma.
— Algo
está vindo.
Apolo
assentiu.
— E
a primeira fenda no tempo é apenas o aviso.
A
projeção mudou novamente, mostrando a Terra.
O
planeta azul tremia — não fisicamente, mas temporalmente.
Pequenas
falhas, atrasos, acelerações...
Como
se o tempo estivesse tentando acompanhar uma música que não conseguia mais
ouvir.
Vênus
levou a mão à boca.
— Se isso continuar a Terra vai perder o ritmo completamente.
Hermes
completou.
— E
quando um planeta perde o ritmo ele perde a si mesmo.
Apolo
envolveu Vênus com sua luz, protegendo-a do medo que começava a crescer.
— Vamos
impedir isso.
Hermes
ergueu o caduceu.
— Então
precisamos seguir o rastro da fenda. Descobrir para onde ela leva.
Vênus
ergueu o rosto, determinada.
— E
descobrir quem — ou o quê — deixou essa cicatriz no tempo.
Apolo
sorriu, mesmo com a luz instável.
— Juntos.
E
assim, guiados pela primeira fenda no tempo, o trio avançou rumo ao
desconhecido — sabendo que o próximo passo os levaria para além do que qualquer
deus já havia enfrentado.